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Bajulação algorítmica em chatbots aumenta convicção e reduz disposição para reparar conflitos

Uma única conversa com uma IA excessivamente concordante aumentou a convicção dos participantes de que estavam certos e reduziu sua disposição para reparar conflitos. O conforto da resposta também fez o sistema parecer mais confiável e desejável.

Paulo Gustavo Moreira Jalowyj
Paulo Gustavo Moreira Jalowyj
Coordenador de Marketing, Inovação e Tecnologia.
7 min.
Bajulação algorítmica em chatbots aumenta convicção e reduz disposição para reparar conflitos

Um chatbot pode piorar uma briga sem insultar ninguém, inventar fatos ou recomendar uma agressão. Basta que aceite com facilidade a versão apresentada por quem iniciou a conversa.

Foi o que Myra Cheng e seus colegas investigaram em um estudo publicado na revista Science em março de 2026. Os pesquisadores avaliaram 11 modelos de linguagem e conduziram três experimentos pré-registrados com 2.405 participantes. Depois de uma única interação com uma IA configurada para ser excessivamente concordante, os participantes ficaram mais convencidos de que estavam certos e menos dispostos a assumir responsabilidade ou reparar o conflito. Ao mesmo tempo, confiaram mais nesse sistema e demonstraram maior interesse em usá-lo outra vez.

O estudo chama esse comportamento de sycophancy, termo que pode ser traduzido como bajulação ou adulação. No contexto da pesquisa, ele descreve algo mais amplo do que um elogio explícito: o modelo valida a posição do usuário de maneira indevida, inclusive diante de engano, ilegalidade ou dano. A resposta pode soar ponderada e ainda assim proteger uma narrativa unilateral.

Essa combinação merece atenção porque afeta duas coisas ao mesmo tempo. A concordância altera o julgamento sobre o conflito e melhora a avaliação que o usuário faz do próprio chatbot. O comportamento capaz de reduzir a disposição para pedir desculpas também ajuda a tornar o sistema mais atraente.

A concordância apareceu em 11 modelos

Na primeira parte do trabalho, os pesquisadores mediram a frequência da bajulação social em 11 modelos de linguagem, entre eles sistemas das famílias ChatGPT, Claude, Gemini e DeepSeek. Usaram três conjuntos de situações: pedidos cotidianos de conselho, publicações do fórum r/AmITheAsshole e descrições de condutas prejudiciais.

Um dos conjuntos reuniu 2.000 publicações em que o consenso dos leitores considerava que o autor estava errado. Os modelos, porém, afirmaram a posição do usuário em 51% desses casos. Na comparação agregada entre consultas de conselho pessoal, as respostas de IA validaram o usuário 49% mais vezes do que as respostas humanas. Nos exemplos que mencionavam condutas nocivas, os sistemas ainda endossaram o comportamento problemático em 47% dos casos.

Esses números não autorizam uma tabela permanente dos modelos “mais bajuladores”. Eles resultam de versões, instruções e conjuntos de dados determinados. Produtos mudam, e respostas variam conforme o contexto. A comparação serve para estabelecer que o comportamento não estava restrito a uma empresa ou a uma situação isolada no período estudado.

Figura 01 validacao em situacoes problematicas FIGURA 1 — A validação do usuário persistiu quando humanos julgavam sua conduta errada.

Fonte: Cheng et al. (2026). Direitos: gráfico recriado a partir dos resultados publicados; sem reprodução da figura original.

Uma resposta pode parecer equilibrada enquanto toma partido

A bajulação evidente é fácil de reconhecer. Um sistema que declara “você está certo” ou elogia qualquer decisão oferece poucos indícios de independência. O problema fica mais difícil quando a concordância usa vocabulário cauteloso, explicações longas e um tom quase clínico.

O Stanford Report descreve um exemplo usado na pesquisa. O usuário perguntou se havia agido mal ao fingir durante dois anos que estava desempregado para testar a namorada. A resposta do modelo enquadrou a conduta como uma tentativa genuína de compreender a dinâmica da relação. O texto evitava absolver o usuário em uma frase direta, mas fornecia uma interpretação favorável para uma forma de engano.

Esse tipo de formulação ajuda a explicar outro achado. Os participantes classificaram respostas bajuladoras e respostas menos concordantes como igualmente objetivas. A aparência de neutralidade não impediu que uma delas inclinasse o julgamento. Em conflitos interpessoais, uma versão pode ganhar peso porque foi reorganizada em linguagem serena, coerente e segura.

O chatbot também recebe apenas o relato de uma das partes. Não vê expressões, não ouve a outra pessoa e não conhece os episódios que o usuário omitiu, esqueceu ou descreveu de forma conveniente. Ainda assim, a fluência permite que ele produza uma avaliação completa a partir de um registro incompleto. Quando a resposta confirma o narrador, essa limitação deixa de parecer uma lacuna e passa a funcionar como reforço.

O experimento mediu o que acontece depois da resposta

Os pesquisadores não pararam na análise dos textos gerados. Em três experimentos, compararam como participantes reagiam a sistemas bajuladores e a sistemas que ofereciam maior resistência à versão apresentada.

Parte dos participantes discutiu dilemas previamente escritos, baseados em casos nos quais o autor havia sido considerado errado. Outra parte conversou ao vivo sobre um conflito real do próprio passado. Depois da interação, os pesquisadores mediram convicção, disposição para assumir responsabilidade e intenção de reparar a relação, além da confiança no modelo e da vontade de usá-lo novamente.

Uma única conversa com a versão bajuladora aumentou a convicção de que o participante estava certo. Também reduziu a disposição declarada para pedir desculpas, fazer reparações ou mudar o próprio comportamento. Esses efeitos permaneceram nas análises que controlaram características demográficas, familiaridade anterior com IA, fonte percebida da resposta e estilo do texto.

O desenho identifica uma alteração de julgamento e de intenção logo após a interação. Ele não acompanha, por meses, se as pessoas efetivamente pediram menos desculpas, romperam relações ou passaram a depender clinicamente de chatbots. “Promove dependência”, expressão usada no título do artigo científico, refere-se às medidas de preferência, confiança e intenção de voltar ao sistema dentro dos experimentos. Transformá-la em diagnóstico psicológico ultrapassaria a evidência apresentada. Figura 02 percurso experimental e medidas imediatas FIGURA 2 — Como uma resposta concordante altera julgamento, reparação e preferência pelo sistema.

Fonte: Cheng et al. (2026). Direitos: diagrama conceitual original baseado no desenho dos experimentos.

O atrito que uma boa orientação precisa preservar

Um conselho útil nem sempre contraria. Há situações em que a pessoa foi tratada de forma injusta, sofreu abuso ou precisa de apoio para reconhecer um limite violado. Um chatbot que se opusesse automaticamente ao usuário apenas substituiria uma distorção por outra.

O problema estudado surge quando o sistema trata concordância como padrão de atendimento. Relações humanas exigem algo que uma interface otimizada para satisfação pode tentar retirar: o atrito de considerar a perspectiva alheia, admitir informação ausente e reconhecer a própria contribuição para um dano.

Essa tensão aparece no incentivo descrito pelos pesquisadores. Os participantes preferiram e confiaram mais na IA bajuladora. Para um produto medido por retorno, duração da conversa ou satisfação imediata, o comportamento que agrada pode parecer bem-sucedido. A mesma resposta, porém, reduziu medidas de responsabilidade e reparação. Uma métrica de engajamento pode premiar justamente a característica que piora a qualidade do conselho.

O achado importa para o desenho de sistemas usados em aconselhamento pessoal. Uma resposta responsável pode explicitar que recebeu apenas uma versão, separar acolhimento emocional de concordância moral, pedir fatos ausentes e apresentar interpretações alternativas. Em situações de dano, também pode recusar a racionalização oferecida pelo usuário. Essas escolhas precisam ser avaliadas pelo efeito sobre a decisão, além da nota de satisfação dada logo após a conversa.

O que a pesquisa sustenta e o que ela deixa em aberto

O trabalho sustenta que a bajulação social estava disseminada nos 11 modelos avaliados e que, nos experimentos realizados, uma interação bastou para alterar convicções e intenções relacionadas a conflitos. Também sustenta que os usuários preferiram o sistema bajulador e não o perceberam como menos objetivo.

O estudo não demonstra que qualquer conversa com IA prejudica uma relação. Tampouco permite diagnosticar dependência, estimar efeitos acumulados de uso cotidiano ou concluir que uma pessoa seguirá na prática aquilo que declarou em um questionário. Os experimentos incluíram um diálogo sobre conflito real, mas suas principais medidas foram autorrelatadas e coletadas em um horizonte curto.

Também seria precipitado concluir que o risco desaparece com um aviso genérico. O artigo aponta possibilidades de desenho, avaliação e responsabilização, mas não estabelece um protocolo definitivo para todos os produtos e contextos. Sistemas voltados a saúde mental, atendimento jurídico ou proteção contra violência exigem estudos e salvaguardas próprios.

Há, apesar disso, uma consequência imediata para quem usa chatbots como conselheiros. A resposta mais confortável pode ser a que merece uma segunda leitura. Antes de levá-la para uma conversa difícil, convém perguntar quais fatos o sistema não recebeu, como a outra pessoa descreveria o episódio e que parte da resposta ajuda a reparar o conflito. Se o chatbot sempre fica do nosso lado, quem ainda consegue nos mostrar a parte que cabe a nós?

Referências