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O pequeno produtor quer atravessar a divisa

Para uma grande agroindústria, vender alimentos em outra cidade ou outro estado faz parte da rotina.

Paulo Gustavo Moreira Jalowyj
Paulo Gustavo Moreira Jalowyj
Coordenador de Marketing, Inovação e Tecnologia.
3 min.
O pequeno produtor quer atravessar a divisa

O pequeno produtor quer atravessar a divisa

Para uma grande agroindústria, vender alimentos em outra cidade ou outro estado faz parte da rotina.

Para quem produz queijo, embutidos, doces e outros alimentos artesanais em pequena escala, atravessar uma divisa municipal pode ser bem mais complicado.

Um projeto em análise na Câmara dos Deputados quer diminuir essa distância.

O Projeto de Lei nº 2.071/2026 autoriza a comercialização intermunicipal e interestadual de produtos artesanais e tradicionais da agricultura familiar que tenham sido aprovados pelos Serviços de Inspeção Municipal (SIM).

Na prática, a proposta tenta abrir novos mercados para o pequeno produtor sem submetê-lo às mesmas estruturas exigidas das grandes agroindústrias.

O selo municipal poderá viajar

Hoje, a comercialização de produtos de origem animal para além dos limites municipais está submetida a regras sanitárias e sistemas de inspeção que podem representar uma barreira especialmente pesada para empreendimentos familiares.

O projeto pretende mudar essa lógica.

Pelo texto, produtos da agricultura familiar, artesanal e de pequeno porte que possuam inspeção municipal poderão ser vendidos em outros municípios e estados sem que a cidade de origem precise aderir ao Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Sisbi-Poa).

É uma mudança aparentemente burocrática.

Para quem produz pouco e depende do mercado regional para crescer, pode significar bastante.

A mesma régua para tamanhos diferentes

Autor da proposta, o deputado Dr. Flávio (PL-RJ) sustenta que parte das exigências sanitárias atualmente aplicadas à agricultura familiar foi pensada para estruturas muito maiores.

O resultado, segundo a justificativa do projeto, é uma espécie de descompasso regulatório: pequenos produtores precisam cumprir requisitos concebidos para grandes agroindústrias para conseguir ampliar a circulação de seus produtos.

A proposta não elimina a fiscalização sanitária.

Os alimentos continuarão sujeitos à inspeção municipal. O que muda é o alcance dessa autorização para comercialização.

180 dias — ou a venda estará liberada

O projeto também estabelece prazo para o governo federal.

Caso o texto se transforme em lei, o Ministério da Agricultura e Pecuária terá 180 dias para regulamentar as novas regras.

Há uma trava interessante contra a demora administrativa: se a regulamentação não sair nesse período, a comercialização intermunicipal e interestadual dos produtos ficará autorizada até que as normas sejam finalmente editadas.

O PL altera a Lei da Política Agrícola e será analisado pelas comissões de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural e de Constituição e Justiça e de Cidadania.

A tramitação é conclusiva nas comissões, mas o texto ainda precisa percorrer o processo legislativo na Câmara e no Senado antes de virar lei.

O agro que também cabe numa pequena propriedade

O projeto joga luz sobre uma parte do agronegócio que nem sempre aparece quando se fala no setor.

O agro brasileiro não é formado apenas por grandes propriedades, exportadores e operações de milhões de reais.

Há também agricultores familiares, cooperativas, pequenas agroindústrias e produtores artesanais para os quais uma mudança na legislação sanitária ou agrícola pode definir se o mercado termina na divisa do município — ou começa justamente ali.

E é nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas econômica.

Ela passa pelo Direito.

Um setor regulado da porteira ao mercado

Produzir no campo envolve hoje um emaranhado jurídico que acompanha praticamente toda a cadeia produtiva.

Política agrícola, contratos, crédito rural, questões ambientais, tributação, regularização fundiária, relações empresariais e exigências sanitárias fazem parte de um setor no qual uma alteração legislativa pode modificar diretamente a forma de produzir e comercializar.

É esse ambiente que está no centro da Pós-Graduação em Direito do Agronegócio e Política Agrícola da Faculdade ESMAFE, voltada à compreensão jurídica e estratégica das relações que estruturam o setor.

A especialização aproxima o Direito das questões concretas do agronegócio e acompanha justamente um mercado em que legislação, políticas públicas e atividade econômica caminham lado a lado.

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Se o PL nº 2.071/2026 avançar, uma pequena mudança na regra poderá produzir um efeito bastante concreto:

para parte da agricultura familiar, o próximo mercado poderá estar simplesmente do outro lado da divisa.

Fonte: Agência Câmara de Notícias.

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